domingo, 1 de julho de 2012

álcool


O álcool é provavelmente uma das melhores coisas que chegaram à Terra, além de mim. Nos entendemos bem. É destrutivo para a maioria das pessoas, mas eu sou um caso à parte. Faço todo o meu trabalho criativo quando estou intoxicado. O álcool, inclusive, me ajudou muito com as mulheres. Sempre fui reticente durante o sexo, e ele me permitiu ser mais livre na cama. É uma liberação porque basicamente eu sou uma pessoa tímida e introvertida, e ele me permite ser este herói que atravessa o espaço e o tempo, fazendo uma porção de coisas atrevidas… O álcool gosta de mim.

Charles Bukowski

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Desde Que Você Morreu Para Mim... Lamúria Abissal

Vamos a uma nova ilusão, talvez que a vida tenha um novo inicio, depois de tanto sacrifício, cai-se tudo de novo no mesmo malefício, estou cansado de sentir remorso, culpa, medo e insegurança, talvez nunca, nunca mesmo, era pra ter tido alguma esperança, todas as pessoas que conheço só aparecem para ir embora, queria nunca ter tido idéia alguma, do que é ser iludido e abandonado já é mais do que tarde demais olhando pra essa tão brilhante lâmina, reflito sobre o começo do final das coisas, relutantemente tudo só volta para o mesmo estado de letargia, desesperança e agonia o resumo da minha vida, se ecoa em ciclos destrutivos o que afinal seria agonia? Após tantas vezes que já deixei o tempo ir, a vida se torna uma grande espera por coisas e pessoas que nunca chegarão, já penso que algo construtivo se ergue a partir do ódio, ele sempre me liberta para cada vez mais alimentá-lo de novo, me consumindo pela raiva e uma incansável ânsia de frieza saia de mim, como uma praga incorporada a meu ser, você nunca sai de mim, praga, nojenta, esquece, mente inútil, esquece esse expurgo por todo o tempo possível eu quis ficar com você, você simplesmente escolheu ir embora e me abandonar, como todas as pessoas que já conheci, você não acrescentou nada, nisso eu só perdi, meu tempo esforço e vitalidade, em uma doença, uma bulimia passional, sua despejando, suas fraquezas em mim todos os dias eu me arrependo, de ter feito tanto, a cada dia eu me forço mais, a esquecer... Eu me sangro em lutas inúteis, a força já não me rende mais para continuar a tentar fazer cada vez mais frustrações, que me iludem em algum dia algo sair dessa rotina tão destrutiva, já que a vida só me rende lamentações e tristezas, dela já não esperarei mais nada, não lutarei pelas pessoas, só luto por mim, pois eu sou o único que não me abandonarei e não irei deixar, me abandonar, assim, não de novo não sei o que eu espero, nem o que eu quero, numa desolação momentânea que se ecoa varias vezes me perco por pensamentos pesados e decepcionados numa ironia, talvez do destino, carrego um fardo que no fundo não quero me livrar. Já não se tem mais esperança, olho pra dentro e só vejo minhas partes desmontadas numa serenidade doentia ou quase sufocante grito por dentro, grito por fora e nada nunca mudará o acontecido acho que está na hora de encarar e deixar tudo passar, já passou na verdade ou nunca esteve parado, tudo mudou, ainda suplico à meu consciente para pensar no que isso se baseou não teve sentido nenhum é hora de reunir detalhe à detalhe, varrer essa angustia que tripula em minhas expressões e conclusões é tanto medo que eu tenho de hoje, a afirmação seria insanidade? Tudo foi em vão, nada valeu a pena, nem nunca valerá, isso sim é mais que certo continuo a esperar, o que eu não sei, talvez só queria acordar e ver que é mentira qual seria a verdade? …Talvez eu queira escolher uma pra acreditar, anestesiaria a dor, mas não mudaria nada de qualquer maneira




Fonte: Lamúria Abissal - Cânticos de um Além Abismo - Desde Que Você Morreu Para Mim...

Alguém


Quando tentamos encontrar alguém
Esse alguém nunca está lá
Ou se oculta através se suas pulsões
Pulsões estas, destrutivas
Que afastam o olhar de quem espera encontrar
Aquilo que talvez nunca existiu...

Quando a esperança se esgota
A verdade resplandece
E as pulsões, antes destrutivas
Hoje já não afetam mais
Pelo menos não muito...

É melhor ignorar do que tentar aquilo que é impossível!

Muitas vezes idealizamos nossos desejos nas pessoas para suprir aquilo que temos de vazio existencial.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Saúde Mental...

"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.

Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia.Eu me explico.Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham... Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda.Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele.Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!

Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou... Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, "saúde mental" até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.
A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música... Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?

Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.
Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram..."

Fonte:
"Sobre o tempo e a eternidade" Campinas: Ed. Papirus, 1996.