domingo, 17 de setembro de 2017

A Filosofia


— o foro íntimo do solitário de espírito livre.

Quando temos verdadeiros amigos, ignoramos o que é verdadeiramente a solidão, mesmo que tivéssemos o mundo contra nós. Infelizmente percebo, contudo, que realmente se ignora o que é ver a solidão crescendo em torno de alguém. Em toda parte onde houve sociedade, autoridades, religiões, opiniões públicas poderosas, em resumo, em toda parte onde houve uma tirania, ela perseguiu com ódio o filósofo solitário, pois, a filosofia oferece ao homem um asilo onde nenhuma tirania pode penetrar, o foro íntimo, o labirinto do coração; e é isso o que indispõe os tiranos. É o refúgio dos solitários, mas é ali também que o maior dos perigos os espia. Esses homens que abrigaram sua liberdade no fundo de si mesmos são obrigados a ter uma vida exterior, a se mostrar, a se deixar ver; pelo fato de seu nascimento, de seu domicílio, de sua educação, de sua pátria, do acaso, da indiscrição dos outros, eles se veem empenhados em inúmeras relações humanas; a eles é conferida toda espécie de opiniões, pelo simples fato de que são opiniões reinantes; toda expressão fisionômica que não for negativa passa como aprovação; todo gesto que não destrói nada é interpretado como adesão. Sabem muito bem, esses solitários de espírito livre, que parecem constantemente, de uma maneira ou de outra, aquilo que realmente são; quando pretendem senão ser verdadeiros e sinceros, em torno deles é tecida uma rede de mal-entendidos; a descrição de seu violento desejo, sentem passar sobre seus atos um vapor de opiniões falsas, de acomodações, de meias concessões, de silêncios complacentes, de interpretações errôneas. É isso que acumula em sua fronte uma nuvem de melancolia, pois, semelhantes naturezas odeiam mais que a morte a necessidade de fingir.

— Friedrich Wilhelm Nietzsche, in Schopenhauer O Educador, pág. 37 - primeiro capítulo.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Tijolada sobre o espiritismo:




"privação das pessoas em desenvolver mecanismos saudáveis de lidar com o luto normal."

....não sempre, mas na maioria das vezes.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A poesia na carta de um suicida...


"A quem possa interessar:

Grande parte do que possuía foi vendida ou doada. O que resta, é minha vontade que seja entregue ao meu amigo João; o qual poderá dar a meus pertences o destino que lhe aprouver.

Nada deverá ser entregue a qualquer parente meu.

Quanto aos meus restos mortais, suplico encarecidamente; não o torturem com choros, rezas ou velas. É apenas a minha matéria e imploro que a deixem degradando-se em paz. A putrefação não é degradante. Se a humanidade permitisse que a natureza tomasse o seu curso, seria o renascimento da matéria.

Eu renasceria no vento que passa a murmurar, nas folhas que farfalham, no solo que abriga e alimenta milhares de seres vivos, na água que corre para o mar nas chuvas que regam os campos, no orvalho que cintila ao luar, nas grandes árvores que abrigam ninhos de passarinhos e que vergam a passagem dos ventos fortes, nos pequenos arbustos que escondem a caça do caçador…

Céus! Eu me vingaria se apenas uma de minhas partículas participasse do desabrochar de uma flor ou do canto de um pássaro. Romântico? Não! Foi o mundo, minha família, meu educador mas principalmente… foi o seio que aconchegou a criança que vinha lhe contar as suas tristezas, máguas, alegrias, pensamentos, e seus desejos íntimos… suas esperanças. A criança crescida quer voltar para lhe contar seus sofrimentos, desilusões, a morte de suas esperanças… para encontrar novamente o aconchego onde poderá descansar sua cabeça cansada e abatida e onde poderá, enfim, chorar as suas lágrimas que não encontram onde chorar.

Volto derrotada porque não fui capaz de viver, trabalhar e estudar não foram suficientes para mim. E foi tudo o que me restou. Prefiro morrer do que viver com a morte dentro de mim.

Perdoem-me"



(Autor desconhecido, individuo do sexo feminino, 27 anos, que ateou contra sua própria vida, com um disparo de arma de fogo) 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Narcisismo na Contemporaneidade: O mal estar da era das “Selfies”


A intenção é trazer uma reflexão sobre as famosas "selfies", o que acontece com esse ciclo vicioso que estão se tornando. Pensar através de conceitos e teorias da psicologia e psicanálise para entender tal fenômeno na contemporaneidade, se não vivemos uma “neurose das selfies”, uma vez que neurose esta relacionada com a questão da compulsão e repetição.

Sigmund Freud, o criador da psicanálise, teorizou sobre o conceito de narcisismo, em sua obra Introdução ao Narcismo, trazendo questões importantes sobre o desenvolvimento do sujeito que ainda podem ajudar a pensarmos no meio em que vivemos, para que uma pessoa consiga estabelecer bons vínculos sociais, é necessário que durante o período da infância, a criança se sinta amada principalmente pelas figuras familiares, ou seja, caracterizando como fundamental o olhar e troca/investimento afetivo.

Com isso, de acordo com a teoria freudiana, é normal e esperado que o narcisismo esteja presente no desenvolvimento de todos nós, mas a forma como é vivenciado na infância influenciará nas outras fases da vida de cada um. Por exemplo, caso ocorra investimento narcísico em excesso o indivíduo poderá ficar voltado demais para si mesmo, e possivelmente terá dificuldades de estabelecer vínculos mais profundos.

Em relação à mitologia grega, Narciso era aquele que ficou conhecido pela sua beleza e também pela impossibilidade de se contemplar, pois segundo o mito, isso lhe renderia vida longa. Mas ao ver-se refletido nas águas de uma fonte, ele se apaixona por si. E em busca desse amor impossível, Narciso funde-se consigo mesmo e sucumbe na própria imagem. Trazendo para o atual contexto, podemos ver tal mito nas tecnologias, principalmente com o uso das redes sociais, e a tão falada “selfies” (substantivo originado de self, “eu” em inglês) não estariam ligadas apenas na intenção de se expor, através de fazer um auto-retrato, mas também uma busca pelo elogio e olhar do outro de ser admirado reconhecido, e assim, amado.

O que é muito discutido atualmente, seria se toda essa exposição e busca revela um sintoma da sociedade, cada vez menos interessada nas relações de fato e reais, á medida que apenas investe na proliferação de imagens, que não necessariamente traduzem o sentido real, ou seja, se o indivíduo de fato esta feliz e bem. Mas nessa busca por ser admirado e amado, de modo tão instantâneo, muitas vezes sem parar refletir, sendo assim de modo mais impulsivo, traduzem os reais sentimentos? E ao final, o indivíduo que terá muitas curtidas e elogios realmente se sentirá melhor?

Acredito que esse sentimento perdura um curto período de tempo, é instantâneo, e por isso, novamente a pessoa precisa postar outra e outra e mais uma “selfie”, para ter mais curtidas e mais elogios, pra de novo “estar bem”, virando um ciclo vicioso, uma tornando-se, assim, uma “neurose” se há uma compulsão da repetição, daquilo que nunca é atingido, por isso a compulsão (postar constantemente uma selfie) para evitar o sentimento de vazio, possivelmente quando o indivíduo começa a entrar em contato com a sensação do vazio instantaneamente “tirar uma selfie”, e novos elogios virão. E não seriam isso as “selfies”, um vício, uma repetição pela busca deste sentimento de “felicidade”, em ser “admirado ou amado”?

Fica a reflexão por uma dificuldade também da pessoa de estar sozinha, com os próprios e reais sentimentos, sejam eles bons ou ruins, ou de pode estar em contato com outro, configurando um mal-estar na era das “selfies”. Dessa forma, cada vez mais as relações se tornam superficiais, ou seja, quando se esta realmente em contato com o outro o indivíduo pouco expõem o que deseja, sente, pensa, pois esta tão voltado para a sua “selfie”, pra si mesmo, como diz Caetano Veloso “Narciso odeia tudo aquilo que não é espelho”, e a “selfie” nada mais é do que uma forma de espelho!

Assim, a pessoa nem se reconhece mais no olhar do outro, não sabe mais o que busca e como no mito, pode sucumbir na própria admiração. Além das fotos de si mesmo, também é muito compartilhado os momentos vividos, mas realmente vivê-los é necessário!

Por fim, como as redes sociais poderiam ser diferentes e mais úteis também? E se cada um começasse a postar mais os seus interesses, informações culturais, a compartilhar projetos sociais importantes, e não somente o seu próprio retrato, mas sim, o que esta por trás da “selfie”, quem realmente é, e como pode ajudar a sociedade em que vive, que com certeza, não será através da postagem de milhares de fotos de si mesmo. A necessidade de construirmos uma sociedade menos individualista e egoísta, que cada vez mais nos tornamos, e sim que as redes sociais possam ter, principalmente, uma função de contribuição à sociedade!

Fonte: Obvious

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

E quando o psicólogo ou psiquiatra morre… por suicídio?


Talvez este seja o tabu dos tabus. Mas seria isso realmente possível? A própria existência deste texto dissolve qualquer dúvida em potencial. Um assunto delicado que envolve muitas questões, sobre as quais não se discute na formação em psicologia ou em psiquiatria. Se esta discussão existe, no entanto, trata-se então de algo completamente isolado e não-representativo. A máxima do conhecimento popular “médico, cura-te a ti mesmo!” também se estende ao campo da saúde mental, alimentando e mantendo escondida uma problemática que envolve famílias, clientes, alunos, empregadores e colegas. Numa pesquisa sobre a reação dos pacientes frente à morte do psicoterapeuta por suicídio, os pesquisadores estadunidenses Reynolds, Jennings e Branson (1997) encontraram diferentes tipos de manifestação, incluindo a negação do tipo de morte (alguns pacientes se recusaram a acreditar na causa do óbito, atribuindo a este outras causas como acidente automobilístico ou assassinato), reações de raiva e decepção, descrença na psicoterapia, episódios depressivos, e até mesmo ideações suicidas entre os pacientes. Mas o que envolve o suicídio de um psicólogo ou psiquiatra?

A pesquisa sobre suicídio entre esses profissionais é bastante escassa. Não apenas pelo tabu em si; mas pela alta complexidade envolvida no desenvolvimento deste tipo de investigação. Se a pesquisa geral sobre comportamento suicida traz consigo dificuldades (relacionadas ao sub-registro de casos, respostas não genuínas às questões das pesquisas, por exemplo), as complicações sobre o exame deste tema entre profissionais de saúde mental são ainda maiores. A primeira delas diz respeito ao ditado popular mencionado acima. Como pode um profissional cuidar da saúde emocional de seu cliente se a sua própria não vai bem? Trabalhando com esta temática (a saúde mental do profissional de saúde mental), Munsey (2006) sugere dois tipos de contextos envolvidos no “mal-estar” de um psicólogo ou psiquiatra: a dificuldade e o prejuízo. Na dificuldade, o profissional vivencia intenso stress não prontamente solucionável, afetando seu bem-estar e funcionamento, provocando interrupções no raciocínio, no humor e em outras áreas da saúde. No prejuízo, o profissional passa por uma situação mais intensa que compromete seu funcionamento profissional a ponto de trazer mal-estar ao seu cliente ou tornar seus serviços ineficazes.

Em um artigo publicado na revista The Psychologist da Sociedade Britânica de Psicologia, Patrick Larsson (2012) listou uma série de publicações com dados sobre suicídio entre psicólogos nos Estados Unidos: Deutsch (1985) descobriu que em uma amostra de 264 psicoterapeutas alunos de mestrado e doutorado, 2% reportaram tentativas de suicídio. Em outra pesquisa com pouco mais de 800 psicólogos, Pope e Tabachnick (1994) demonstraram que 29% reportaram ideações suicidas, e 4% afirmaram ter tentado tirar a própria vida. Investigando sobre depressão entre 425 profissionais da psicologia, Gilroy e sua equipe (2002) mostraram que 21% dos entrevistados reportaram ideação suicida passiva, 18% ideação suicida sem plano, e 3% indicaram ideação suicida com plano de execução. Por trás desses números, esconde-se a pressão social sobre o profissional para manter-se “congruente com o que prega” e a consequente negação de problemas emocionais mais sérios. Junto a isso, psicólogos e psiquiatras frequentemente retém informações clínicas importantes e não as compartilham com seus próprios terapeutas ou com colegas (Pope & Tabachnick, 1994). É frequente haver a divisão entre “nós”, os psicólogos/psiquiatras, e “eles”, os clientes/pacientes, o que também pode oportunizar e reforçar uma forma de negligência do próprio estado de saúde mental do profissional.

Ao mesmo tempo, o estigma e julgamento social envolvidos no “mal-estar” do profissional pesa sobre ele como um fracasso: “sou uma contradição! Ajudo na transformação da vida de outras pessoas, as auxilio em seu desenvolvimento emocional e comportamental, mas não posso ajudar-me!”. A busca por ajuda pode ser interpretada pelo profissional que sofre como humilhação e uma declaração aberta de seu suposto fracasso ou incongruência. Sabe-se que uma das razões mais comuns de psicólogos e terapeutas não admitirem sofrer depressão ou ideações suicidas está relacionada ao medo da censura profissional (Deutsch, 1985).

Todas essas questões dificultam muito a intervenção e prevenção do suicídio entre trabalhadores da saúde mental. DeAngelis (2011) sugere que algumas medidas deveriam ser tomadas para prevenir o suicídio entre psicólogos [e psiquiatras]: (1) treinamentos sobre risco e prevenção ao suicídio deveriam ser incluídos nos cursos de formação e qualificação de profissionais de saúde mental; (2) melhoraria no treinamento dos profissionais qualificados não somente no gerenciamento do comportamento suicida com clientes, mas também em métodos de intervenção com colegas que eventualmente estejam vivenciando dificuldades; (3) tornar habitual a discussão sobre os desafios envolvidos em ser um psicólogo; (4) melhorar o ensino sobre estratégias de como lidar com possíveis casos de morte de colegas por suicídio; (5) criar grupos de suporte profissional a fim de reduzir o isolamento inerente ao exercício da profissão.

Tema difícil. Tema delicado. Mas da mesma forma como incentivamos a população a falar sobre suicídio, devemos também iniciar um diálogo dentro da psicologia e da psiquiatria sobre a problemática que pode estar do outro lado do sofá de um consultório. Claro, esta é uma tarefa que cabe aos colegas de profissão, (família e amigos, se possível), exclusivamente. Da mesma forma como há trabalho lá fora, há também dentro da categoria profissional, e tais questões não podem mais ser poupadas em nome da imagem social de seres “intocáveis”.


APA (6th Edition):
Zortea, T. C. (2015, Setembro 22). E quando o psicólogo ou psiquiatra morre… por suicídio?. [Web log message] Recuperado de: http://comportamentoesociedade.com.

domingo, 21 de agosto de 2016

A geração dos imaturos para sempre


Estamos vivendo um movimento que lembra a força de uma epidemia. Vivemos cercados de pessoas acometidas por uma espécie de mistura de “Síndrome de Peter Pan”, com “Complexo de Cinderela”, mais uma pitada de “Jeito Pateta de ser” e um tiquinho de “Meu sonho é morar na Disney”. Isso até seria engraçado, se não fosse assustador. E trágico.

Há pessoas que simplesmente não encontram o caminho da maturidade. E nem é que não queiram crescer ou estejam perpetuando a adolescência para além dos trinta, quarenta ou cinquenta anos porque decidiram que é assim que tem que ser. Não! Nada disso!

Simplesmente não sabem como fazê-lo. Existe uma legião de perdidos num limbo da infância emocional eterna, alimentados por um estilo de educação familiar que não percebe o quão danoso pode ser a qualquer um de nós, ser poupado a todo custo de sofrer frustrações, de lidar com as negações, de enfrentar a vida por si mesmo.

Há milhares de famílias, que vão desde os menos favorecidos até os mais abastados, que insistem em criar seus filhos como se eles – os pais – fossem durar para sempre. Alimentam suas crianças e jovens com infinitas mamadeiras de dependência emocional, sob o pretexto de garantir que seus rebentos sejam absolutamente felizes, sempre felizes, todos os dias, o tempo todo.

O resultado de tamanha alienação é a ocorrência de meninos e meninas, que serão meninos e meninas para toda a eternidade. Recém-nascidos para sempre, que esperneiam quando algo não sai do jeito que esperavam. Que amarram a cara, quando não são imediatamente atendidos. Que não fazem a menor ideia de como todas as coisas que os cercam vão parar em suas mãos.

Meninos e meninas com vida sexual ativa. Meninos e meninas que não sabem dar importância ou valorização para a formação acadêmica. Meninos e meninas que chegam à vida adulta, sem ter a menor ideia do quanto de dinheiro é necessário para mantê-los. Meninos e meninas que se consideram adultos o suficiente para beber, para fumar, para amanhecer na rua e voltar para suas casas a hora que bem entenderem. Alguns com carteira de motorista em mãos, mas sem juízo suficiente para sentar-se atrás de um volante ou no banco de uma moto. Muitos, sem nenhuma noção de compromisso e responsabilidade. Perdidos.

E, não, não estou falando que as pessoas precisam viver de forma rígida e azeda. Não estou falando que é proibido ser alegre. Não se trata de não ter o direito de ser criança, ou jovem e se divertir e aproveitar essas fases tão maravilhosas e absolutamente necessárias para que um dia, surja um adulto inteiro.
O grande nó para o qual eu convido a uma boa reflexão é o fato de que estamos assistindo passivamente a inúmeras crianças e incontáveis jovens, sendo privados da experiência fantástica que é passar por essas fases e estar disposto a entrar em outras. Outras fases, tão ricas e bonitas quanto são aquelas pelas quais passamos em nossos anos iniciais.

Crescer é um direito! Amadurecer é tomar posse da própria vida. É ter a chance de fazer escolhas. É experimentar o prazer de andar com as próprias pernas. E errar. E acertar. E tentar outra vez, outra coisa, de outro jeito. Tenhamos a amorosidade necessária para abrir mão de congelar nossos filhos num tempo em que, depois de um tempo, o que era encantador certamente será ridículo. Tenhamos a sabedoria para dar a mão às nossas crianças na travessia da vida, sabendo que vez ou outra é com as mãos livres que se deve andar.


Por Ana Macarini


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A Diferença Entre Querer Morrer e Querer Que a Dor Pare


Eu não quero morrer.

Eu só queria que a dor parasse: a dor que rodeava e apertava meu peito, o peso que envolveu meu cérebro na sombra, a agonia que transformou todo o mundo em escuridão.

Eu precisava disso para cessar a dor.

Não foi um grande trauma que me convenceu que a morte era a minha única opção, mas uma série interminável de pequenas dores que roubaram a minha esperança. A pressão da vida quotidiana tornou-se um assalto implacável: uma mão pesada sobre meu ombro que me esmagava.

Uma manhã eu tive uma discussão menor com meu marido e, como diz o  provérbio sobre colocar mais lenha na fogueira, essa discussão me deixou em pedaços.

E então eu decidi que tinha apenas uma escolha que fazia algum sentido. Senti que todo mundo estaria melhor sem mim.

Eu fiz um plano. Eu escrevi cartas para a minha família. Chorando, telefonei para o meu amado irmão para dizer adeus.

Entretanto, levou poucos momentos para ele compreender o que eu estava fazendo e, em seguida, rapidamente, ele entrou em ação. Ele me cortou, desligou na minha cara e chamou meu marido imediatamente.

Meu marido correu de seu prédio de escritórios e, frenético, me procurou usando um aplicativo em seu telefone. Ele chamou um policial. Chamou a ambulância. Levou-me para o hospital.

Deram-me uma bebida lamacenta em um copo de papel enquanto eu estava deitada na maca, e eu chorei.

Eu não quero morrer.

Eu só queria que a dor parasse.

A escuridão que eu tinha mergulhado era muito espessa. Eu não conseguia mais enxergar meus filhos.

Eu não conseguia mais enxergar a vida que eu tinha construído com o homem que eu havia escolhido 25 anos atrás. Eu não podia enxergar minha família, os irmãos que me conheciam desde o nascimento, os pais que me apoiaram desde antes que eu pudesse lembrar. Eu não podia enxergar meus amigos, que teriam ficado extremamente entristecido comigo se eu tivesse de deixá-los.

Eu não podia ver o amor.

Havia amor em volta de mim, mas esse amor foi empurrado pela escuridão, com força despejado de minha consciência pelo preto sufocante.

No hospital psiquiátrico, eu estava cercada por pessoas cujas experiências foram muito parecidas com o minha. Ouvi histórias familiares. Eu aprendi novas formas de lidar com a minha dor. Percebi que tinha opções. Mais importante, porém, vi que não estava sozinha.

Eu tenho ajuda.

Eu tenho um bom diagnóstico e fui colocada sob medicação que funcionou como um raio de luz no meu cansado cérebro, confuso. Isso não aconteceu da noite para o dia. Levou algum tempo para encontrar as doses certas e as prescrições corretas, mas eu perseverei. Eu mantive firmemente a esperança de que o antídoto certo para a escuridão poderia ser encontrado.

Eu não quero morrer.

Eu só queria que a dor parasse.

E ela parou.

Lenta, mas seguramente, com a terapia e o tempo, a dor parou.

Estou aqui hoje para lutar junto com você: Não desista.

Há uma razão para que você esteja lendo isso agora, neste exato momento no tempo. Esta é uma mensagem que você precisa ouvir. Você não está sozinha. O próprio mundo anseia para você ficar, anseia para você permanecer. A Terra está chamando. Ouça! Lá está, no calor dos raios do sol em cima de seu rosto virado para cima, na brisa fresca que acaricia sua pele, no canto de um pássaro, a maravilha de folhas e flores. A mensagem está lá para ouvir. A Terra está implorando para você não desistir.

Para toda escuridão há um facho de luz pelo qual é possível andar, basta apenas que os olhos sejam liberados do desespero.

Buscar. Falar com alguém. Há amor lá fora; há amor ao seu redor. Só porque você não pode sentir isso agora não significa que ele se foi. Não acredite na escuridão. Ele é uma mentirosa e uma ladra.
Estou feliz por estar aqui hoje.

A chuva cai e o sol brilha. Posso ver meus filhos rirem e chorarem e lutar e crescer. Meus pais estão agradecidos. Meu marido é cuidadoso. Meus irmãos me apoiam. Meus amigos me querem bem. Todo dia eu vejo o amor que eu não podia ver antes.

Eu acreditava nas mentiras que a escuridão me falou, e eu tentei tirar minha vida.
As vezes a vida ainda é uma luta. As vezes o amor parece desaparecer e parece estar longe. Há dias em que eu acordo desanimada e me sinto derrotada. Tem dias que eu ainda quero deixar este mundo (e todas as suas tribulações) para trás. Mas eu continuo colocando um pé na frente do outro, e eu agarro a esperança. Eu falo com os que me rodeiam. Eu tenho um boa noite de sono. Um novo dia amanhece. Eu me sinto melhor.

Eu não tinha que morrer para que a dor parasse.

Você também não tem que querer.


Texto original: The Difference Between Wanting to Die and Wanting the Pain to Stop / By Jennifer Wilson

sexta-feira, 24 de junho de 2016

FAZER PSICOTERAPIA? EU?


Nos dias atuais, é muito comum ver muitas pessoas cuidando bastante da aparência física como: ir a academia, fazer diversos tratamentos estéticos, cirurgias plásticas, entre outros. Não que isso seja errado, é muito importante se cuidar, quem não quer ter uma boa aparência? Mas é ai que entra o questionamento, será que damos a devida importância a nossa saúde emocional, como priorizamos outras coisas em nossas vidas? Muitas vezes empurramos os problemas para “debaixo do tapete” e quando nos damos conta já estamos sobrecarregados.

Um psicólogo pode ajudar bastante com a psicoterapia. Mas o que é psicoterapia? “A palavra PSICOTERAPIA vem de therapia- que significa tratar, cuidar e psic.(o) que se refere a mente, portanto, psicoterapia é um processo de busca de conhecimento e desenvolvimento pessoal e principalmente de ajuda.”. Infelizmente ainda há muitos mitos e resistências que rondam o tratamento psicológico, como: “quem procura psicólogo é doido” , “psicoterapia é só conversa fiada” ou ainda, “psicólogo é o mesmo que amigo”.

Um psicólogo escuta empaticamente o outro, aplicando técnicas psicológicas, acolhendo o sofrimento sem julgamentos ou influenciação de qualquer espécie. Mas para ter um processo terapêutico de sucesso, além de escolher um profissional ético e competente, o paciente também tem que procurar se ajudar, pois o terapeuta não consegue ajudar quem não quer ser ajudado, é como uma via de mão dupla. Um psicólogo não vai usar sua forma de compreender o mundo para com seus pacientes, pois a psicologia é uma ciência, e o cabe ao profissional treinado, orientar o paciente de acordo com sua abordagem terapêutica neste processo de autoconhecimento.

As causas mais frequentes na procura de um psicólogo são: transtornos de ansiedade, depressão e outros transtornos do humor, problemas familiares, traumas, fobias, dificuldades no relacionamento, orientação profissional, timidez entre outros. O fato de buscar ajuda psicológica não quer dizer que a pessoa é “louca” e sim que está em busca de alguém para ajudá-la a organizar suas emoções e pensamentos ; ele não vai “resolver seus problemas” , mas sim ajudá-lo a traçar um caminho, pois nem sempre se encontra respostas para tudo sozinho; infelizmente o estigma de doenças mentais é uma barreira que impede algumas pessoas de buscar tratamento adequado.

Procurar um psicoterapeuta não é um sinal de fraqueza, muito pelo contrário, é sim, um sinal de coragem, porque a partir do momento que fazemos a escolha de cuidar da nossa saúde emocional, estamos encarando um grande processo de mudança interna, que só irá trazer benefícios. Para se ter um bom andamento terapêutico é importante que o paciente se sinta seguro e confiante com o seu psicoterapeuta, e que haja empatia entre ambas as partes , porque um bom profissional sempre vai agir com ética e respeito com o outro e também com si próprio.

Encerro, com uma frase do psicólogo Bruno Rodrigues: “ em minha opinião ir ao psicólogo deveria ser tão comum como ir ao clínico geral, ao dentista, ao oftalmologista. Cuida-se dos dentes ,dos olhos e dos efeitos físicos, e esquece-se de cuidar das emoções, dos pensamentos, dos sentimentos, justamente o que o ser humano tem de mais sublime.”

terça-feira, 24 de maio de 2016

História de Jesus é Farsa Criada pelos Romanos

Criado pelos Romanos para enganar as massas, manipular as mentes...


Historiador americano afirma que a figura de Jesus foi usada como propaganda pelos romanos para acalmar os povos sob seu domínio. O pesquisador americano Joseph Atwill, que afirma que a figura de Jesus Cristo foi fabricada pela aristocracia romana, e diz ter encontrado novos dados que confirmam sua teoria. O historiador diz que um relato da Judéia do século I contém diversos paralelos entre Jesus e o imperador romano Tito Flávio. As informações são do site do jornal britânico Daily Mail.

Atwill afirma que essas confissões são clara evidência de que a história de Jesus é na verdade construída, ponta à ponta, baseada em histórias anteriores, mas especialmente na biografia de um César romano. James Crossley, da Universidade de Sheffield, diz ao jornal que a teoria de Atwill é como os livros de Dan Brown. "Esse tipo de teoria é muito comum fora do mundo acadêmico e são normalmente reservadas à literatura sensacionalista". "Cidadãos alertas precisam saber a verdade sobre nosso passado para podermos entender como e por que governos criam falsas histórias e falsos deuses", diz Atwill. O americano irá apresentar seus dados em uma palestra em Londres.

Segundo o pesquisador, a criação de uma figura foi usada como propaganda pelos romanos para acalmar os povos sob seu domínio. "As facções de judeus na Palestina da época, que aguardavam por um messias guerreiro profetizado, eram uma constante fonte de insurreição violenta durante o primeiro século", diz o historiador, "Quando os romanos exauriram os meios convencionais de anular rebeliões, eles mudaram para a guerra psicológica. Eles pensaram que o meio de parar a atividade missionária fervorosa era de criar um sistema de crença adversário. Foi quando a história do messias 'pacífico' foi inventada", diz Atwill. O pesquisador diz que, ao invés de encorajar a guerra, o 'messias' inspirava a paz e ainda dizia aos judeus darem a "César o que é de César" e, assim, pagar suas taxas para Roma. Atwill diz ter encontrado um relato de Flávio Josefo (historiador romano) sobre a guerra entre romanos e judeus. O americano argumenta que o texto contêm diversos paralelos entre o texto e o Novo Testamento.

A seqüência de eventos e localidades visitadas por Jesus Cristo segundo o texto bíblico é aproximadamente a mesma da campanha militar de Tito Flávio, imperador romano durante a guerra, afirma Atwill. O Daily Mail destaca, contudo, que Tito Flávio nasceu em 39 d.C. e morreu em 81 d.C., mas isso não muda nada, a historia desse imperador foi usada para criar a figura mítica de Jesus, que foi então abraçada, e propagandeada a partir de 300 d.C. pelo imperador Constantino.

Opinião minha pelo que ví, vivi, senti e pude perceber... Jesus é mais uma tática de dominação em massa, um personagem criado á partir da figura do que chamamos hoje de hippies, que por acidente acabou dando certo e dominou a mente de gerações e gerações de pessoas presas na terra. Diria que Jesus foi criado por uma das maiores mentes da história, porque seu legado vem destruindo e dominando seus seguidores e pelo visto a coisa só vai piorar. De fato, sua mensagem bondosa não poderia ser diferente, afinal ele é o tal filho do Deus de Israel então obviamente não veio para nada mais do que submeter a grande massa ao escravismo.

Engraçado que Jesus como Messias não cumpriu sequer nenhuma profecia , tudo que o novo testamento supõe que ele cumpriu está fora do contexto das profecias originais da Torah , até porque um salvador como os Judeus esperam é impossível. Não entendo porque tanta crença num ser tão nefasto e escravista, os crentes ficam lendo somente essa biblia com "mil" livros á menos e acham que sabem de tudo. No próprio Talmud Judaico está escrito que "Quando o Messias vier, cada Judeu terá 2800 escravos", outra citação : “No tempo do Messias, os judeus exterminarão todos os povos da terra.”

Em 1673, Bar Nachmani, no “Bammidhar rabba”, fol. 172, c. 4 e fol. 173, c. O Messias que eles esperam irá concluir a promessa de seu deus YHVH de que o “Povo escolhido” irá dominar toda terra. Obviamente que já se passaram tantos anos nessa espera que hoje em dia a maior parte dos membros do Judaísmo já deixaram de acreditar em tais escritos e, ou não praticam religião nenhuma, ou estão migrando para organizações mais amplas que englobam toda a humanidade e não só um grupo seleto.


Tenho pena, conheço judeus de perto, vejo que por conta dessa história milenar eles sofrem preconceito dos cristãos, preconceitos por sua raça, obvio que há aqueles que fazem por merecer mas não dá para generalizar. Em fim , se esses Jesus é o todo poderoso filho de deus e tudo mais, a história dele é bem cheia de problemas e pelo visto ele mais derrama sangue do que salva alguém com o seu próprio como os cristãos adoram pregar.

domingo, 8 de maio de 2016

O que faz um psicólogo?


O infinito do horizonte, a profundeza dos oceanos e o abismo do precipício: esta poderia ser a descrição de uma paisagem ou ambiente, mas são cenários que elucidam a mente humana, que é considerada um lugar sem restrições. E é aí que entra o psicólogo, profissional responsável por estudar e analisar questões internas do indivíduo, que refletem em seu comportamento.

O psicológico identifica traumas, medos e receios que podem acarretar em uma vida frustrada. “E qual o objetivo de ir ao psicólogo?”, alguns perguntam. A resposta é simples: eles ajudam a superar situações difíceis ou problemáticas.

Importante profissional na atualidade, sobretudo, com as complexidades do mundo contemporâneo, saiba o que faz um psicólogo, as especificidades desta carreira, além das possíveis abordagens da psicologia no nosso artigo de hoje.

Sem contraindicação

Tão relevante quanto saber o que faz um psicólogo, é conhecer o público-alvo do profissional, que equivocadamente é associado a pessoas com transtornos psiquiátricos. Sem restrições, o psicólogo é indicado a todos que possuem insatisfação em qualquer âmbito, seja profissional, pessoal, amoroso ou financeiro.

Pessoas ou crianças que possuem emoções a flor da pele, doenças não diagnosticadas e problemas de relacionamento são alguns dos casos em que é necessário procurar um psicólogo. O acompanhamento com o profissional provavelmente solucionará pendências íntimas, resultando em uma vida mais leve, plena e feliz.

Inúmeras possibilidades de carreira

Profissão em alta, o psicólogo pode atuar em diversos setores, como: instituições de ensino, clubes esportivos, clínicas, consultórios, penitenciárias e hospitais. A área acadêmica e as consultorias de empresas, também são opções atrativas. Destaca-se ainda que os profissionais da área são fundamentais tanto em organizações privadas como públicas.

Outro segmento em evidência é o de recursos humanos, que recentemente tem admitido um número expressivo de profissionais da psicologia, pois estes são capazes de traçar perfis compatíveis com os valores das empresas, além de prestarem atendimento para os colaboradores.



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sexta-feira, 4 de março de 2016

Auto afirmação...


A Vida seria mais simples se as pessoas não vomitassem felicidade falsa.

A vida seria mais simples se as pessoas fossem mais elas mesmas. Se elas olhassem nos olhos dos outros e falassem sobre seus problemas, seus medos. 

A vida seria mais simples se a gente não precisasse provar que é bem-sucedido o tempo todo. Seria mais simples se a gente pudesse gostar das pessoas independentemente da vida que elas levam. Se a gente pudesse dizer sem constrangimento algum que está se sentindo um monte de merda e que a vida pode ser bem complicada sim. Talvez, se admitíssemos mais o caos que é viver, não sofreríamos tanto. Talvez, se desfocássemos mais daquilo que dizem que é importante , mas que não faz sentido para nós, fôssemos mais bem sucedidos num sentido mais amplo. 

Sim, a vida seria bem mais simples e espontânea se as pessoas não vomitassem felicidade falsa nem tentassem o tempo todo provar um equilíbrio que elas não têm. Ninguém acorda super bem todos os dias. Ninguém se sente disposto para uma cerveja depois do expediente todos os dias. Ás vezes a gente fica mal mesmo, lembra de um monte de fatos trash e quer chorar na cama que é lugar quente. Ás vezes as coisas não parecem fazer muito sentido e a gente quer ficar fechadinho dentro da gente mesmo.

A gente não é obrigado a ficar feliz e comemorar porque é Natal, réveillon ou dia dos namorados. A gente não precisa necessariamente sorrir e querer curtir porque faz sol, porque a gente está na praia ou porque disseram que a vida é simples e é o ser humano que complica.
A gente não precisa rejeitar a tristeza como se fosse uma doença pestilenta. Ela faz parte da vida como a alegria. Só precisamos tomar cuidado para não transformá-la em um hábito ou nos esconder atrás dela por medo de ser feliz ou ainda dar importância demais a problemas e principalmente à pessoas pequenas. Este é um exercício e tanto que pode levar anos ou a vida inteira. Mas me parece que vale a pena.

Talvez se mostrássemos mais os nossos rostos demaquilados e nossas almas nuas, se não nos defendêssemos tanto uns dos outros, se não nos importássemos tanto em mostrar que somos melhores do que os outros, pudéssemos ser mais unidos, mais solidários, mais amados, mais amantes.

Se a gente entendesse que todo mundo está no mesmo barco...Rogo pelo dia em que as mulheres casadas se assumam sozinhas e mal amadas. Rogo pelo dia em que as mulheres solteiras confessem que uma companhia faz falta sim e que fazer tudo sozinha pode ser muito triste. Rogo pelo dia em que os homens tanto casados como solteiros afirmem com todas as letras que morrem de medo das mulheres e que nunca deixam de ser meninões. Rogo pelo dia em que as mães gritem desesperadas o quanto estão cansadas e as que não têm filhos lamentem esta lacuna em suas vidas. Que os crentes reclamem dos grilhões da fé e que os ateus lamentem não crer. 

Que todos se assumam meio perdidos, meio sozinhos nesta vida louca. Rogo para que as pessoas assumam como o passado é doloroso e o futuro incerto. E depois de tantas confissões acaloradas, que elas possam respirar fundo, sorrir umas para as outra e seguir em frente cheias de coragem. Que depois de tudo, a gente pudesse cantar juntos I will survive e nos sentir intimamente ligados ao outro por meio da nossa vulnerabilidade, por meio da nossa capacidade irrestrita e desgovernada de dar e receber amor.

Texto retirado do obvious

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O machismo e a psicanálise: os riscos do "fiar-se nela"



"Uma coisa é o sujeito interrogar o inconsciente sobre seus amores, outra é a resposta lhe vir da "mulher" em questão. Não se trata mais de acreditar, mas de "fiar-se nela". Um risco, diz Lacan, o do amor. Aí está a diferença da obsessão, da fobia, etc. É que uma mulher fala sem que isso lhe seja pedido. Fiar-se nela é não apenas supor que ela seja a eleita do inconsciente, mas é também confundir sua fala com a verdade desse inconsciente, reconhecer nela a proferição de um 'tu és' interpretativo. É colocar seus ditos no lugar das reticências do sintoma, ali onde deveria vir a decifração. A realidade clínica desse fato é absolutamente certa. (...) Na análise, o 'minha mulher me diz que' pode ser comparado com isso, às vezes. Muitos fatos clínicos se esclarecem a partir daí, em especial o de uma mulher poder assumir, vez por outra, um papel quase persecutório, como uma voz que trombeteia nos ouvidos. 

'Ela me diz que ... não fico à altura dela, não sou corajoso, não me porto bem com as crianças, não sou o pai que deveria ser...'. Isso não condiz com a harmonia do cotidiano, é claro, porque as mulheres, ao contrário, gostam que se fale com elas e, com mais frequência, gostam de ser tomadas como exemplo. 

Por isso se constata que, na impossibilidade de reduzi-la ao silêncio, a solução, para o homem, é às vezes ouvir muitas delas, jogar com sua sinfonia, porque, quando ele realmente só tem uma em que se fiar, é, como se costuma dizer, uma loucura... (...) 'Minha mulher diz que' tem a estrutura da perseguição, e não é por brincadeira que Lacan afirma que o cômico do amor é o cômico da psicose, ou seja, que nos fiamos nela como numa voz. Mas com a diferença de que, se a paranoia identifica o gozo no lugar do Outro, o amor situa aí, primeiro, a mensagem da verdade. Daí este anseio bem masculino: 'tomara que ela cale a boca!', que também se diz 'seja bonitinha e fique calada'. Não devemos imaginar que sejam os critérios da estética que predominam nisso. 

O peso recai sobre o 'fique calada', como se lhe dissessem: 'não venha aí onde está o inconsciente'. Na análise, 'onde isso era, ali devo eu advir', mas quando, no amor, 'onde isso era, advém a fala dela', bem, vemo-nos numa estrutura discretamente geradora de paranoia, que constitui grande parte da tragicomédia do casal. É que, com a verdade, venha 
ela de onde vier, só existe uma única relação segura: a castração. 

Tive conhecimento do caso de um homem que, fazia 30 anos, anotava todos os dias em sua agenda o que sua mulher dizia, como se seu ser estivesse em jogo nisso! Por outro lado, em casos menos extremos, conhecemos os fenômenos da vigilância conjugal exercida por certos homens sobre aquela que não é forçosamente sua esposa, mas que, afinal, é a 'uma' em questão. Sabemos de mulheres condenadas a permanecer em casa, porque é preciso pelo menos circunscrever o perigo - trata-se de um mecanismo equivalente ao que se produz na fobia. Nesta, localiza-se a ameaça num significante e se fica tranquilo em todos os lugares em que ele não está. 

Pois bem, para alguns, quando a mulher está em casa, o homem pode se dedicar tranquilamente a suas ocupações lá fora. Mas, caso ela venha a se mexer e a proferir algo em público, a coisa pode se tornar mais perigosa. Há também o tipo de homem inquisitivo que pretende obter dela a última palavra! Por que não evocar ainda o fenômeno das mulheres que apanham? Ele com certeza é sobredeterminado, mas também aí evocarei um caso: a mulher não é espancada quando abre a boca para falar de coisas e de terceiros, mas, quando quer dizer alguma coisa sobre os dois, ela e ele, aí, sim, chovem pancadas".


Por Colette Soler, em "O que Lacan dizia das mulheres"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O deus zangado



"Um dos piores aspectos do cristianismo é que ele santifica medo, tanto pessoal como impessoal. O medo do inferno, o medo da extinção, temer que o universo não tenha propósito, é considerado uma emoção nobre, e os homens que se deixam dominar por tais temores, são considerados superiores aos homens que enfrentam o que é doloroso, sem hesitar. O homem que considera uma virtude temer a um Deus zangado, em breve, começará a ver a virtude em ser submisso à tiranos terrenos. No melhor caráter, existe um elemento de orgulho, não o tipo de orgulho que despreza os outros, mas do tipo que não é desviado do que ele acha que é o certo por pressão externa. O homem que tem esse tipo de orgulho vai desejar, na medida do possível, saber a verdade sobre assuntos que lhe dizem respeito, e vai sentir-se um escravo se, em seu pensamento, ceder ao medo. Mas esse tipo de orgulho é condenado pela Igreja como um pecado, e é chamado de "o orgulho do intelecto." Da minha parte, longe de considerá-lo um pecado, eu defenderia que seja uma das maiores e mais desejáveis das virtudes." (Bertrand Russell - "Understanding History and Other Essays" - 1957)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Saúde Mental fora da Lei


Quem pensa que Saúde Mental é um estado da mente se engana. Saúde Mental é um país. Por isso o leitor não deve estranhar quando às vezes dizemos "nós da Saúde Mental" como dizemos "nós, povo de Pasárgada". Este texto traz uma pergunta: será que nós da Saúde Mental estamos fora da lei? Será que ainda temos legitimidade em nosso país quando somos conduzidos por quem não nos representa? Passados quinze anos da promulgação da lei 10.216, que deveria reorientar definitivamente a modalidade de atendimento em saúde mental no Brasil, é possível constatar que a expressão “Mental” foi incapaz de fornecer a coerência necessária para a efetivação dessa política sem que potentes significantes mestres ameaçassem seu retorno. Como toda lei, esta igualmente foi feita para o cidadão. Devolveria ao louco seu direito à cidadania mas, como efeito colateral necessário, criaria mais um Ideal que pesaria sobre o sujeito em sua relação com o mundo no qual ganharia um maior protagonismo.

Não há reivindicação de direito que não seja presidida pelo imperativo de um ideal. Ou seja, na demanda pelos próprios direitos o cidadão está sempre certo. Ele tem o Outro como garantia e a identificação como direito assegurado pelo estado, direito a se identificar. É possível, contudo, estabelecer uma distinção entre o que é objeto da demanda de cidadania e o que é o objeto da pulsão. Assim, a demanda do sujeito distingue-se da demanda do cidadão. Ela implica em uma pergunta singular feita ao Outro visando apenas o seu ser falante, uma demanda cujo gozo em questão faz dele um eterno traidor do discurso universal. A cidadania segue cálculos coletivos, já a singularidade de um sintoma implica em estratégias privadas que sempre apontam para uma falha estrutural, o Outro nunca lhe dará aquilo que ele pede. Em sua relação com o gozo, nenhuma política evitará que o sujeito seja um fora da lei. A psicanálise, nesse sentido, não pode tampouco se prestar a oferecer a lei que falta sobre o gozo, este será sempre um problema para o sujeito na sua relação com o mundo.

Tratando-se de sujeitos psicóticos, em sua maioria, os que foram beneficiados pela lei, cabia perguntar que efeitos clínicos e que efeitos terapêuticos podiam ser esperados do novo contexto. O que parecia inicialmente ser um avanço irreversível, com mais cidadania e menos asilo, mostrou-se com o tempo ser um passo sob ameaça constante de retrocesso. Tivemos inicialmente que lutar para explicitar como a lógica do ato médico era incompatível com a clínica da reinserção social e abordagem interdisciplinar. Em seguida tivemos que lutar contra a tendência inquietante de tratar o espaço mental pela religião. Agora, com a mudança do comando da política nacional de saúde mental percebemos que os velhos significantes mestres nunca se afastaram realmente.

O que ocorre quando uma política de saúde mental é orientada por um modelo hospitalocêntrico? Talvez muitos das novas gerações de profissionais da saúde mental, que já foram formadas em CAPS e demais serviços substitutivos, não tenham conhecido uma verdadeira instituição asilar. Cabe à todos que conheceram os asilos não deixar essa memória se apagar. A lógica asilar é o fracasso do discurso e da conversação, nela prevalecem o poder e a disciplina como forma de tornar os corpos e mentes dóceis ao Outro social.

Prefiro a babel democrática dos diversos discursos. Queixa-se com frequência de que a pluralidade do discurso interdisciplinar é infernal, que é nela que reside a maior dificuldade em fazer existir uma unidade terapêutica sintetizada no projeto terapêutico individual. Ora, somente o espaço público e democrático poderá garantir e suportar o choque dos discursos criando um lugar para o sujeito. Mais o sujeito é capturado por um único discurso, mais ele tende a ser eclipsado.

A Saúde Mental não é um conceito organizado a partir de Um discurso ou de Uma lei. Seu objeto é a loucura de cada um, loucura inapreensível quando se busca alcançá-la através da pureza asséptica de uma ciência qualquer. É por isso que a clínica é mais do que um simples discurso, ela implica um ato. Livrar o sujeito das identificações que o condicionam preservando, contudo, o sintoma que é sua forma irredutível de existir.

Este é um princípio lacaniano, uma identificação somente é necessária quando é sintoma. O desconforto do mundo moderno diante do sintoma é patente. Alimenta-se a esperança de poder eliminá-lo com os avanços da ciência. Espera-se que ele passe despercebido no mundo se for aceito socialmente. O conservadorismo de muitos políticos que agora se arvoram a legislar sobre a saúde mental – na maioria das vezes sob um fundo religioso - parte invariavelmente da premissa de que todo sintoma é handcap.

O modo como vejo a psicanálise participando do debate é justamente apontando para a impossibilidade de se encontrar um discurso comum sobre o sujeito. Não alimentar esperanças de que algum projeto terapêutico, principalmente aqueles com a melhor das intenções, seja possível sem preservar e fomentar a liberdade individual. Mesmo quando a doença mental é objeto de uma ciência específica nada pode ser dito do sujeito dessa doença. É aqui que doença e loucura são conceitos que nunca se superpõem. Saúde Mental é muito mais do que tratar de uma doença, ela inclui igualmente o tratamento do Outro, de sua falha, sua incompletude. Estamos em um desses momentos em que tratar o Outro é mais importante do que tratar a loucura. Continuando o processo atual, em breve "nós da Saúde Mental" escreveremos um cartaz dizendo: “A Saúde Mental adverte, a política nacional faz mal à saúde.”

Por Marcelo Veras

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Alcateia



"Os 3 primeiros lobos são os fracos e doentes. Eles dão ritmo a caminhada para todo a alcateia. Se tivesse sido de outra forma, teriam sido os últimos e seriam mortos.

Em caso de ataque são as primeiras vítimas. Estes criam o caminho na neve para economizar energia dos que estão por trás deles. São seguidos por cinco lobos fortes que formam a vanguarda, no entanto, o centro é a riqueza do bloco - 11 lobas.

Sucessivamente, os outros cinco lobos fazem a retaguarda. O último, quase isolado da alcateia, é o líder. Ele deve ver claramente todo o grupo, a fim de controlar, dirigir, coordenar e dar os comandos necessários."


Ser líder é ter a capacidade de ver o todo. Liderar é função e não privilégio!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

10 Estratégias de manipulação em massa utilizadas contra você




Noam Chomsky é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, reverenciado em âmbito acadêmico como “o pai da linguística moderna“, também é uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica.

"Em um estado totalitário não se importa com o que as pessoas pensam, desde que o governo possa controlá-lo pela força usando cassetetes. Mas quando você não pode controlar as pessoas pela força, você tem que controlar o que as pessoas pensam, e a maneira típica de fazer isso é através da propaganda (fabricação de consentimento, criação de ilusões necessárias), marginalizando o público em geral ou reduzindo-a a alguma forma de apatia " (Chomsky, N., 1993)

Inspirado nas idéias de Noam Chomsky, o francês Sylvain Timsit elaborou a lista das “10 estratégias mais comuns de manipulação em massa através dos meios de comunicação de massa“

Sylvain Timsit elenca estratégias utilizadas diariamente há dezenas de anos para manobrar massas, criar um senso comum e conseguir fazer a população agir conforme interesses de uma pequena elite mundial.

Qualquer semelhança com a situação atual do Brasil não é mera coincidência, os grandes meios de comunicação sempre estiveram alinhados com essas elites e praticam incansavelmente várias dessas estratégias para manipular diariamente as massas, até chegar um momento que você realmente crê que o pensamento é seu.


1. A estratégia da Distração

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio, ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se por conhecimentos essenciais, nas áreas da ciência, economia, psicologia, neurobiologia e cibernética.

“Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais“

2. Criar problemas e depois oferecer soluções

Este método também é chamado “problema-reação-solução“. Se cria um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja aceitar.

Por exemplo: Deixar que se desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas desfavoráveis à liberdade.

Ou também: Criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. (qualquer semelhança com a atual situação do Brasil não é mera coincidência)


3. A estratégia da gradualidade

Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas, neoliberalismo por exemplo, foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estratégia também utilizada por Hitler e por vários líderes comunistas.  E comumente utilizada pelas grandes meios de comunicação.


4. A estratégia de diferir

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária“, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.

É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.

Depois, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “amanhã tudo irá melhorar” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento.


5. Dirigir-se ao público como crianças

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criança de pouca idade ou um deficiente mental.

Quanto mais se tenta enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como as de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade.”

6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e finalmente no sentido crítico dos indivíduos.

Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.


7. Manter o público na ignorância e na mediocridade

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão.

“A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser revertida por estas classes mais baixas.


8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade

Promover ao público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto.


9. Reforçar a auto-culpabilidade

Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, suas capacidades, ou de seus esforços.

Assim, no lugar de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E, sem ação, não há questionamento!


10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem

No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes.

Graças à biologia, a neurobiologia a psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado sobre a psique do ser humano, tanto em sua forma física como psicologicamente.

O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.