sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Ética sem religião



Você provavelmente já deve ter ouvido a frase: “Se não há Deus, tudo é permitido”, não é? Muitas pessoas acham que se não existe algum ser superior para ditar o que devemos seguir, podemos fazer o que quisermos, e consequentemente, o mundo seria um lugar imoral. Porém, essa conclusão não condiz com fatos. Se essa afirmação fosse verdadeira, então por que há tantos ateus e agnósticos altruístas? 1 Por que há países com uma grande quantidade de ateus que possuem uma taxa de assassinatos baixíssima? 2 Por que antes mesmo de Jesus, o filósofo chinês Confúcio já usava a frase “não faça aos outros o que você não quer que seja feito a você? 3  4

Muitos religiosos dizem que “as palavras ‘certo’ e ‘errado’ só fazem sentido se Deus existir, porque elas dependem da vontade de Deus”. Ora, se algo é certo ou errado apenas porque Deus quis, quer dizer que se a vontade Dele fosse diferente, então coisas diferentes seriam certas e erradas. Se, por exemplo, a vontade de Deus fosse a de torturar bebês; por definição, torturar bebês seria moralmente correto. Claro, um religioso poderia dizer que essa nunca seria a vontade de Deus. Porém, essa resposta sugere que o religioso em questão já possui alguma noção de o que é certo e o que é errado, independentemente de Sua vontade.

O que nos leva a ter essa noção básica inata de o que é certo e errado então? Freud A seleção natural explica: As evidências sugerem que para os nossos ancestrais sobreviverem, e assim conseguirem passar seus genes para gerações futuras, tiveram de formar fortes relações de reciprocidade. Então os que tinham uma empatia inata com outros membros de seu grupo, tiveram mais chances de se reproduzirem. Podemos ver o resultado deste fenômeno em vários estudos com bebês que mostram que eles já possuem empatia e, consequentemente, uma tendência a fazer coisas que consideramos morais. 5 6 7 8  Provavelmente, quem é pai ou mãe já deve ter percebido essas ações ‘empáticas’ de seus filhos sem mesmo ter ensinado a eles.

A empatia e o senso de justiça não é uma característica presente apenas em humanos, já que estas características surgiram de um ancestral comum bem distante de nós, animais sociais contemporâneos. Podemos encontrar essas características em várias espécies, principalmente em espécies primatas, que evidentemente não precisam de uma religião para terem alguma noção de moral. Por exemplo, se dermos uma opção a um macaco de escolher se apenas ele deverá ganhar um petisco, ou se ele e mais outro macaco deverão ganhar petiscos, este irá escolher que os dois deverão ganhar. 9 O mesmo altruísmo já foi visto até em ratos! 9 O senso de justiça também é evidente em outros estudos com macacos capuchinhos, em que viu-se que se dermos uma recompensa mais valiosa a um macaco, e uma menos valiosa a outro, após fazerem a mesma tarefa, o que recebeu a recompensa menos valiosa protestava, jogando-a de volta no pesquisador.

A empatia foi algo que melhorou a interação dos membros dos grupos de animais sociais, o que contribuiu para a sobrevivência da espécie. Mas outros aspectos de nossa natureza também foram decisivos na seleção natural, e tais aspectos não fazem muito bem para o bem-estar da sociedade. Por exemplo, nossos ancestrais precisavam ter algum mecanismo de defesa contra grupos externos que poderiam ameaçar suas vidas. Se eles não possuíssem uma certa aversão a grupos desconhecidos, haveria menos chance de sobreviverem e passar seus genes para gerações futuras. Outros estudos com bebês mostram que eles possuem uma certa aversão a estranhos de outra cultura ou a pessoas que são levemente diferente deles. Algumas pesquisas indicam que eles podem até sentir prazer se alguém que não é parecido com eles for destratado 7 8 Também existe um fenômeno muito conhecido na psicologia social chamado ‘paradigma do grupo mínimo’, que basicamente é o que acontece quando separamos grupos de pessoas de acordo com qualquer critério que você possa imaginar (ex. Jogando uma moeda). Uma vez que os grupos estejam separados, os membros de um grupo imediatamente começam a pensar que os outros membros de seu próprio grupo merecem mais (pontos, dinheiro, etc) do que os membros de outro grupo, independentemente da razão e de ganhos próprios.

Bom, até agora apenas descrevi características biológicas que temos, e como chegamos a possui-las. Isso nos ajuda a entender porque reagimos naturalmente a certas coisas do modo que reagimos, mas isso não necessariamente quer dizer que devemos sempre seguir nossos instintos: eles nos enganam muitas vezes. Por exemplo, Hitler justificou seus genocídios como sendo processos de “seleção natural” em favor da “raça ariana”– este raciocínio é conhecido como falácia naturalista, que erroneamente supõe que tudo que é natural é bom.

Podemos considerar o que ele fez uma lição para a humanidade de que devemos ser mais críticos quanto às nossas tendências naturais/instintivas, que no caso dele foi a aversão que ele tinha por outros grupos. A natureza humana possui elementos de preconceito e violência, mas também possui generosidade e a capacidade de raciocinar. E é justamente a nossa capacidade de raciocinar e de se comunicar de uma forma complexa que podem nos dizer quais impulsos instintivos fazem bem para nós, assim como os que nos fazem mal.

O que é ético então? Como podemos usar nossa racionalidade para determinar o que é certo e o que é errado mais precisamente do que nossos instintos naturais, e sem a influência da cultura e da religião? Pois bem, para sabermos a melhor coisa que devemos fazer eticamente, precisamos de um critério objetivo para definir o que é o “bom absoluto”; ou seja, o que é o melhor para nós termos como objetivo ético final. Para saber isso, imagine um universo onde há apenas pedras: elas não pensam, não sentem, nem possuem consciência. O que de bom e de ruim pode existir num universo assim? Simplesmente nada, correto? Se não existirem seres capazes de terem esses atributos, algo intrinsecamente bom, ou intrinsecamente ruim seria logicamente impossível de existir. Ou seja, o “bem” e o “mal” só passa a existir quando há seres capazes de experienciá-los. E o único modo em que podemos experienciar o bem e o mal é através da nossa sensação de ‘bem-estar’/‘felicidade’/‘prazer’ e ‘dor’/’sofrimento’. Muitos filósofos pensam que se o bem está diretamente ligado ao bem-estar, e o bem é o que se procura em ética, nossas ações devem então buscar o objetivo de maximizar o bem-estar dos seres conscientes. Desse modo, a ética teria um objetivo universal, justificado, auto-evidente, e independente de objetivos arbitrários e de religiões.

Se assumirmos esse objetivo ético, podemos então julgar, baseado em evidências e na razão, o que é certo e errado de se fazer. Por exemplo, não há motivos para o bem-estar de homens brancos possuir maior valor do que o bem-estar de pessoas negras, logo, a escravidão dos negros foi eticamente errada, pois esta causou sofrimento em negros em prol do bem-estar dos brancos. O bem-estar dos pobres na África, que nunca tiveram oportunidades de ter suas necessidades básicas supridas, não é menos importante do que o de outras pessoas que nasceram em melhores condições, logo o altruísmo é algo eticamente correto.

Seguindo essa lógica, chegamos a uma conclusão parecida com a ‘regra de ouro’, pregada por Confúcio, por Jesus e outros antigos filósofos, porém com algumas mudanças: a de que “faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você, supondo que você tivesse as preferências e gostos dos outros”, com a exceção de que podemos infligir uma diminuição de bem-estar a uma pessoa, se essa pessoa estiver sendo um problema para o bem-estar de outras pessoas (que é o caso de prender assassinos, ladrões, etc). Tal modo de agir se assemelha ao ‘tit-for-tat’, um conceito bem estudado na ‘teoria dos jogos’ que procura maximizar a cooperação entre pessoas. 11 12 Para continuar o raciocínio deste quesito, é preciso se comentar sobre o problema do livre-arbítrio, que são assuntos para outros textos, já que este já está muito grande.

Como vimos, é possível se chegar a conclusões sobre o que devemos fazer como uma sociedade sem termos de nos basear no que um Deus tenha dito. Esta linha filosófica de ética proposta no texto é a base da moral de vários filósofos e outras pessoas que não possuem religião. 13  Claro que não diria que esta é a filosofia de todos os ateus (Nietzsche é um ótimo exemplo contrário). Mas de qualquer modo, se queremos uma sociedade melhor para se viver, não vejo outro caminho para tal sem considerarmos que o objetivo final que devemos ter é o máximo de bem-estar para todos.


REFERÊNCIAS

1 http://pitweb.pitzer.edu/academics/wp-content/uploads/sites/38/2014/12/FAC-Zuckerman-Sociology-Compass.pdf (Center for Global Development, 2008) ; Oliner & Oliner (1988) e Varese & Yaish (2000)
2 http://pitweb.pitzer.edu/academics/wp-content/uploads/sites/38/2014/12/FAC-Zuckerman-Sociology-Compass.pdf  (Jensen, 2006; Paul, 2005; Fajnzylber et al., 2002; Fox e Levin, 2000)
3 http://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/religare/article/download/17391/9889
4 http://plato.stanford.edu/entries/confucius/
5 http://www.scientificamerican.com/article/the-moral-life-of-babies/
6 https://www.psychologytoday.com/blog/am-i-right/201202/are-infants-moral
7 https://www.youtube.com/watch?v=FRvVFW85IcU
8 https://www.youtube.com/watch?v=Z-eU5xZW7cU
9 https://www.youtube.com/watch?v=JZurINLlVds
10 https://en.wikipedia.org/wiki/Minimal_group_paradigm
11 Bilhões e Bilhões, Carl Sagan
12 Shaun Hargreaves Heap, Yanis Varoufakis (2004)
13 The Point of View of The Universe: Sidgwick and Contemporary Ethics – Katarzyna de Lazari-Radek and Peter Singer

Créditos ao universoracionalista 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O MEDO NEURÓTICO


O medo mórbido e paralisante do neurótico é uma reação
desproporcional em referência ao estímulo, seu medo é apenas
atualizadora “realidade”, não é causado pela mesma. O indivíduo normal
teme reativamente, ou seja, não teme compulsivamente, seu medo,
por ser proporcional ao perigo imediato, acaba onde começou. 
Interessantemente, para a Psicanálise, nosso contato com a existência
é fortemente marcado pelo medo. Sentir medo, neste caso, está
intimamente ligado ao nosso ato racional discriminativo.

O medo neurótico, bem diferente dessa ativação discriminativa,
é irracional. Assim, o conteúdo de tal medo é sempre
uma “mescla” de sentimentos, por isso, o senso discriminativo
é praticamente anulado.

Uma pessoa normal, embora sofra os muitos medos culturais,
potencializa sua coesão egoica em defesa de sua vida. Sua capacidade
interna é usada na superação das dificuldades existenciais.

Diferentemente, o neurótico se perde em seu sofrimento. É muito
comum o indivíduo neurotizado idealizar a “morte” como uma solução
para os problemas da vida, na neurose sempre existe uma discrepância
entre a potencialidade interna e as realizações do sujeito.

As defesas normais do ego visam elaborar uma nova maneira
de se relacionar com a existência. São em si o germe de um novo
momento, de um novo contato com o real. O que chamamos de
“defesas maníacas” se prendem ao antigo, levam o neurótico novamente
ao passado. Infelizmente, ao invés dessa viagem regressiva
reorganizar a vivência presente do sofredor, só o leva a sofrer
pela “segunda vez” aquilo que sofreu no passado.

Frente a essas diferenças básicas entre o normal e o anormal,
a Psicanálise considera a neurose como uma forma mal sucedida de desenvolvimento.
O neurótico evolui em seu quadro deletério, porém, paradoxalmente,
não se desenvolve como ser humano.


Texto extraído do livro Revisitando Freud:
As interfaces contemporânea da Psicanálise.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O arquétipo da Loucura no personagem do Coringa no filme: “The Dark Knight” (2008).



Resumo

O presente artigo é uma proposta de análise do personagem do Coringa em The Dark Knight (2008) à luz do arquétipo do louco, partindo do que é apresentado por Sallie Nichols (1908-1982), no livro “Jung e o Tarô: uma jornada arquétipa”. Ao longo do texto, abordou-se a evolução do personagem tanto nos HQ’s quanto no cinema, assim como sua função na conflitiva herói vilão na história do Batman, mostrando as principais cenas e momentos que tiveram relevância na construção da persona de louco no vilão. Conclui-se a discussão trançando um panorama da função do vilão no universo das HQ’s bem como do seu real propósito para a vilania.

PALAVRAS-CHAVE: Arquétipo, Loucura, Coringa.


Introdução

Joker (Piadista, na tradução), ou Coringa, é um dos principais e mais famosos vilões da HQ’s do Batman. O personagem sempre fez sucesso entre os leitores de HQ, mas caiu mesmo no gosto popular com a interpretação de Heath Ledger em “The Dark Knight” (2008). O longa dirigido por  Christopher Nolan, nos apresenta uma leitura mais realista, psicótica e cruel do personagem.

A leitura de Nolan, traz uma vertente mais relista das HQ’s, o que proporcionou uma maior identificação com os personagens da saga (EYGO, 2013). Nessa nova versão cinematográfica quase podemos nos ver no personagem, e talvez seja este o diferencial que atraiu tanto a atenção do público nessa franquia.

Por meio dessa projeção de nosso Eu na personalidade doentia do palhaço, trazemos à tona características particulares de nossa psiquê até então negligenciadas (EYGO, 2013). A conscientização dessas características tão nossas, ou que almejamos serem nossas, nos permite perceber aspectos desconhecidos de nossa própria personalidade, auxiliando no autoconhecimento.

Em realidade, a projeção acontece de forma tão contínua e inconsciente que costumamos não dar atenção de que ela está acontecendo. Não obstante, tais projeções são instrumentos úteis à conquista do autoconhecimento. Contemplando as imagens que atiramos na realidade exterior, como reflexos de espelho da realidade interior, chegamos a conhecer-nos (NICHOLS, 1997, p.20).

Não há consenso na história, e nem no surgimento do personagem do Coringa. Sua primeira aparição nos quadrinhos foi na revista Batman nº1 de 1940. O personagem teria sido criado por Bill Finger (1914 – 1974) co-criador e roteirista do Batman. Finger teria se  inspirado em uma foto de Conrad Veidt no filme “The Man Who Laughs” (1928).

O passado mais aceito, e popularmente mais citado vem da HQ: “A Piada Mortal”, editada por DC Comics em 1988. A edição especial traz um Coringa assombrado pelo seu passado, e disposto a provar a qualquer custo, que a loucura está ao alcance de todos os homens. Nas falas do próprio personagem: “A loucura é à saída de emergência” de nossa sanidade (Batman [DC Comics], 1988).

Nessa edição, nos seus vários flashbacks, o Coringa aparece como o saqueador conhecido como: Capa Vermelha, que na tentativa de dar uma vida melhor à esposa grávida, planeja assaltar a fábrica de cartas de baralho onde trabalhou. O vilão seria originalmente um engenheiro em uma fábrica de produtos químicos que, ao perder o emprego, tenta a vida, sem sucesso, como comediante. Enquanto planeja o assalto, ele é informado pela policia que sua esposa gravida morre em um acidente doméstico. Desolado, o vilão prossegue com a ideia do assalto, mas ainda sem muita experiência, acaba sendo flagrado no ato e, num rápido confronto com o Batman, cai no tonel de produtos químicos. Todos acreditam que Capa Vermelha teria morrido no incidente, mas ele reaparece saindo da água, já com a pele branca e cabelo verde, sendo o Coringa.

Contudo, essa teoria é desacreditada pelo próprio palhaço, quem em uma das falas afirma não ter certeza quanto ao seu passado, nem de como teria se tornado o coringa: “Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltiplas escolhas.” (Coringa – A Piada Mortal – DC Comics, 1988, p 40).



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